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“Baleia Azul”: Igreja evangélica brasileira precisa falar sobre suicídio

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Um desafio chamado “baleia azul” (blue whale, em inglês) tem levado diversos jovens a cometerem suicídio por promoverem um abalo psicológico profundo. Os casos foram apontados em várias reportagens, até mesmo uma jovem brasileira teria se suicidado após participar do desafio.

Alguns sites confiáveis como o Estadão e a Revista Cláudia disseram, depois, que o desafio é uma notícia falsa que circula na Rússia – dada como o local onde o desafio foi criado – há mais de um ano. Sendo verdade ou não, a notícia nos leva a algo que é incontestável: o crescimento do número de casos de suicídio, principalmente entre jovens.

E engana-se que quem pensa que este assunto não deve ser tratado pelas igrejas, pois há muitos pastores, filhos de pastores e membros que estão tirando a própria vida sem que os demais consigam entender os motivos, ou ainda, sem que quem está ao redor consiga perceber que a pessoa precisa de ajuda.

A depressão está associada a muitos casos de suicídio, inclusive entre pastores. Uma informação dada pelo instituto Schaeffer aponta que 70% dos pastores lutam constantemente contra a depressão.

A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos e afirma também que: 71% dos pastores se dizem esgotados, 80% acreditam que o ministério pastoral afetou negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo.

Ainda que não haja uma pesquisa nacional sobre o tema, é necessário trazer o assunto para dentro das igrejas e buscar formas de ajudar não apenas o líder, mas seus familiares e também os membros que enfrentam a depressão e tantas outras doenças emocionais que podem levar ao suicídio.

baleia

Casos podem ser prevenidos

O suicídio assusta quem está em volta e não esperava a atitude da pessoa, mas de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos se essas pessoas tivessem com quem conversar.

O psicólogo e missionário da SEPAL, Marcos Quaresma, chegou a escrever um artigo sobre o suicídio de pastores e seus familiares e listou algumas atitudes que podem diminuir a tristeza, a depressão e a solidão.

“Fazer algo que traga alegria, prazer: ver filmes, pescar, caminhar, nadar, dançar, viajar. Atividades que o façam se sentir mais humano”, indicou.

Encontrar amigos para jogar conversa fora também é outra dica dada por ele que entende como uma amizade é importante para que a pessoa não se sinta isolada e possa contar seus problemas e ansiedades.

Outra dica é procurar ajuda profissional, muitos evangélicos, por ignorância, não aceitam passar por psiquiatras, psicólogos e terapeutas. Porém, a depressão é uma doença e, como tal, precisa de acompanhamento médico.

Como a igreja pode ajudar?

Quaresma listou em seu artigo três formas que as igrejas podem se empenhar para discutir e tratar o assunto com seus pastores:

  • Promover encontros de pastores que possuam caráter terapêutico/curador. Com facilitadores habilitados na condução de compartilhamento de emoções que afetam a vida pastoral;
  • Diminuir as pressões de resultados sobre a função pastoral. Pastor não é um executivo, nem técnico de futebol, mas um cuidador do rebanho-família;
  • Estabelecer um padrão mínimo de orçamento-salário pastoral, para que ele e sua família não sofram privações.

Mas para tratar de todos os membros da igreja é preciso incentivar a criação de laços entre a irmandade, através de grupos menores de interação, ministérios de aconselhamentos, liberar o espaço da igreja para trabalhos sociais com a presença de terapeutas para que todos tenham acesso a este tipo de profissional, até mesmo quem não possa pagar por este serviço.


Cinco dicas para a prevenção
de pais e alunos:

1. Fique atento à mudança de comportamento

Uma mudança brusca de comportamento pode ser sinal de que a criança ou o adolescente esteja sofrendo com algo que não saiba lidar, segundo Elizabeth dos Reis Sanada, doutora em psicologia escolar e docente no Instituto Singularidades.

“Isolamento, mudança no apetite, o fato de o adolescente passar muito tempo fechado no quarto ou usar roupas para se esquivar de mostrar o corpo são pistas de que sofre algo que não consegue falar”, diz.

2. Compartilhe projetos de vida

Para entender se a criança ou adolescente está com problemas é fundamental que os pais se interessem por sua rotina. Elizabeth reforça que este deve ser um desejo genuíno, e não momentâneo por conta da repercussão do “Jogo da Baleia”.

“Os pais devem conhecer a rotina dos filhos, entender o que fazem, conhecer os amigos”, afirma a Elizabeth. Ela lembra que muitos adolescentes “falam” abertamente sobre a falta de motivação de viver nas redes sociais. Aos pais cabe incentivar que os filhos tenham projetos para o futuro, tracem metas como uma viagem, por exemplo, e até algo mais simples, como definir a programação do fim de semana.

3. Abra espaço para diálogo

Filhos devem se sentir acolhidos no âmbito familiar, por isso, Elizabeth reforça que é necessário que os pais revertam suas expectativas em relação a eles. “É preciso que o adolescente se sinta à vontade para falar de suas frustações e se sinta apoiado. Se ele tiver um espaço para dividir suas angústias e for escutado, tem um fator de proteção”, afirma Elizabeth.

Angela Bley, psicóloga coordenadora do instituto de psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, diz que o adolescente com autoestima baixa, sem vínculo familiar fortalecido é mais vulnerável a cair neste tipo de armadilha. “O que tem diálogo em casa, não é criticado o tempo todo, tem autoestima melhor, tem risco menor. Deixe que ele fale sobre o jogo, o que sente, é um momento de diálogo entre a família.”

Angela reforça que muitas vezes o adolescente não tem capacidade de discernir sobre todo o conteúdo ao qual é exposto. “Por isso é importante o diálogo franco. Não pode fingir que esse tipo de coisa não existe porque ele sabe que existe.”

4. Adolescentes devem buscar aliados

O adolescente precisa buscar as pessoas em que confia para compartilhar seus anseios, seja no ambiente escolar ou familiar, segundo as especialistas. “Que ele não ceda às ameaças de quem já está em contato com o jogo e entenda que quem está a frente deles são manipuladores”, diz Elizabeth.

5. Escolas podem criar iniciativas pela vida

Assim como a família, as escolas podem ajudar a identificar situações de risco entre os alunos. “Não é qualquer criança que vai responder ao chamado de um jogo como esse, são os que têm situações de vulnerabilidade. A escola ajuda a construir laços e tem papel fundamental de perceber como os alunos se desenvolvem”, afirma Elizabeth.

Alguns colégios, já cientes da viralização do jogo, começaram a pensar em alternativas para aumentar a conscientização sobre a importância de cuidade da vida. No Colégio Fecap, que fica na Região Central de São Paulo, essa ideia virou projeto escolar: a turma de alunos do ensino médio técnico de programação de jogos digitais começou a criar uma espécie de “contra-jogo” da Baleia Azul.

“O jogo ainda está sendo produzido pelos alunos. Eles estão se reunindo e debatendo a questão. Serão 15 desafios de como desfrutar melhor da vida e celebrá-la”, conta o professor Marcelo Krokoscz, diretor do colégio.

Durante o curso, os estudantes aprender a aplicar linguagens de programação para criar jogos para computadores, videogame, internet e celulares, trabalhando desde a formação de personagens, roteiros e cenários até a programação do jogo em si. Segundo Krokoscz, a ideia é que o jogo, ainda sem prazo de lançamento, esteja disponível on-line para o público em geral.

Ele afirma que o objetivo é a ajudar os jovens a verem o lado bom da vida. “Impacta mais fortemente nossos alunos a partir do momento que eles mesmos criam um jogo a favor da vida.”


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